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Por que músicas marcam amores, Copas do Mundo e festas de família
Do primeiro namoro à Copa assistida ao lado dos pais e amigos, a música tem um papel único na construção das memórias afetivas. Especialista explica o que acontece no cérebro quando uma canção nos transporta instantaneamente para outro momento da vida.
Bastam poucos segundos.
Às vezes é o início de uma música tocada durante uma Copa do Mundo. Outras vezes é a canção que embalou um namoro, uma festa junina na escola ou uma viagem em família.
De repente, sem qualquer esforço consciente, o cérebro parece abrir uma janela para o passado.
Voltamos a sentir cheiros, emoções, rostos, lugares e até sensações físicas associadas àquele momento.
Mas por que a música tem esse poder?
Segundo o Dr. Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg (Dinamarca), especialista em intervenções mediadas pela música e pesquisador da relação entre música, cérebro e desenvolvimento humano, poucas experiências ativam simultaneamente tantos sistemas cerebrais quanto a música.
“Quando ouvimos uma música importante da nossa história, o cérebro não recupera apenas uma lembrança. Estruturas como o hipocampo, envolvido na memória, e a amígdala, relacionada às emoções, são ativadas em conjunto. É por isso que determinadas canções conseguem nos transportar de volta para experiências vividas há muitos anos”, afirma.
A ciência chama esse fenômeno de memória autobiográfica evocada pela música.
Na prática, significa que determinadas canções funcionam como verdadeiros marcadores da nossa história.
A música da primeira Copa, a canção que tocou no primeiro beijo, a trilha sonora da adolescência, a quadrilha da festa junina da escola.
Tudo isso pode permanecer registrado por décadas. Uma verdadeira máquina do tempo para o cérebro.
“O cérebro entende a música como uma experiência completa. Ela envolve emoção, expectativa, ritmo, repetição e significado pessoal. Essa combinação favorece a formação de lembranças muito duradouras”, afirma Gustavo.
Não por acaso, muitas pessoas conseguem cantar músicas inteiras aprendidas décadas atrás, mesmo quando têm dificuldade para lembrar informações recentes.
A EMOÇÃO É O QUE FIXA A MEMÓRIA
Se a música tem um papel especial na construção das lembranças, existe uma explicação importante: a emoção.
O cérebro tende a registrar com mais intensidade experiências emocionalmente relevantes.
E a música frequentemente está presente justamente nos momentos mais marcantes da vida.
“Não costumamos guardar na memória todos os dias comuns. Mas lembramos da música que tocava em um momento especial. Isso acontece porque emoção e memória caminham juntas e é por isso que eventos coletivos também deixam marcas profundas”, afirma o especialista.
Canções associadas a Copas do Mundo, por exemplo, permanecem vivas não apenas pela melodia, mas porque representam encontros familiares, celebrações, derrotas, conquistas e sentimentos compartilhados.
A MÚSICA COMO CONEXÃO ENTRE GERAÇÕES
Além de guardar memórias, a música também ajuda a criar novas.
Muitas famílias vivem esse fenômeno sem perceber.
Pais apresentam aos filhos músicas que marcaram sua juventude.
Filhos compartilham novas descobertas musicais.
E, aos poucos, surgem canções que passam a representar histórias construídas em conjunto.
“Quando diferentes gerações compartilham experiências musicais, elas estão construindo uma linguagem emocional comum. A música cria oportunidades de conexão que muitas vezes acontecem de forma espontânea”, sintetiza o Dr. Gustavo.
Essa conexão é especialmente importante em uma época marcada pelo excesso de estímulos digitais e pela redução dos momentos de convivência presencial.
Uma playlist compartilhada, uma viagem ouvindo música ou até mesmo uma dança improvisada na sala podem se transformar em lembranças que acompanharão uma família por muitos anos.
MUITO ALÉM DA NOSTALGIA
Embora muitas pessoas associem música apenas à nostalgia, seus efeitos vão além.
A música pode contribuir para bem-estar emocional, regulação do estresse, fortalecimento de vínculos e sensação de pertencimento.
“Quando ouvimos uma música importante da nossa história, não estamos apenas olhando para trás. Muitas vezes estamos reafirmando quem somos, de onde viemos e com quem compartilhamos a nossa trajetória”, afirma.
Talvez seja por isso que algumas canções nunca envelheçam.
Porque elas não vivem apenas nos aplicativos de música.
Vivem nas nossas histórias.
E toda vez que apertamos o play, uma parte delas volta a tocar dentro de nós.
Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg (Dinamarca), especialista em intervenções mediadas pela música, pesquisador, palestrante e autor de dez livros publicados em diferentes idiomas sobre música, saúde e desenvolvimento humano.
Com mais de 20 anos de experiência clínica e acadêmica, atua com foco em música, cérebro, regulação emocional, saúde mental, autismo, superdotação, altas habilidades e neurodesenvolvimento.
Fonte: Kelly Bessa – K.Bessa Assessoria de Comunicação